Barbosa

por Marcial Salaverry

Vamos falar com saudades, de um dos maiores goleiros que o Brasil já teve. Falecido recentemente, quase esquecido por todos. Menos por aqueles que lhe deram o devido e merecido valor pelas suas qualidade como atleta e, principalmente, como pessoa cheia de qualidades que foi.

Sem dúvida, trata-se de Barbosa. O tão condenado Barbosa, aquele que tomou o gol fatídico contra o Uruguai na grande final da Copa do Mundo de 1950. Os que o execraram por aquele gol, sem dúvida alguma se esqueceram de que havia mais 10 jogadores em campo, alguns com a obrigação de evitar que Ghighia entrasse livre pela área e chutasse aquela bola e outros, com a obrigação mais simples de fazer a sua parte. Ou seja, marcar mais gols. Então a culpa, logicamente, não foi só a do Barbosa. Mas também foi a do Augusto, do Juvenal, do Bauer, do Bigode, do Friaça, do Zizinho, do Ademir, do Jair, do Chico e principalmente a do Flávio Costa que, por pura politicagem não escalou a melhor seleção da época. Barbosa fez grandes defesas naquele jogo. O ataque cansou de perder gols. Não se esqueçam de que, desde que Charles Miller trouxe a primeira bola, existe uma máxima o futebol: "Quem não faz, toma!"… Daí, a culpa não foi só do Barbosa.

Entretanto, o que não se justifica é o que foi feito depois; o calvário sofrido pelo homem quando encerrou sua brilhante carreira muitos anos após. Sim, porque ele continuou jogando - e bem - apesar das perseguições, sendo sempre lembrado de que não fomos campeões mundiais por sua culpa. A equipe que ele defendeu por quase toda sua carreira nem tomou conhecimento de sua existência. Estou falando do Vasco da Gama, cujos dirigentes sempre esqueceram a quantidade de títulos que Barbosa os ajudou a ganhar. Somente se lembraram dele quando, há alguns anos, um repórter curioso ouviu falar que o goleiro da Copa de 50 estava dormindo na sarjeta, em um canto perdido da Praia Grande, município do litoral sul de São Paulo. Aí então, algumas almas piedosas condoeram-se de sua situação e deram-lhe um apartamento para morar e um emprego numa banca de jornais para ganhar sua subsistência. Vocês pensam que Barbosa, por essa situação de penúria revoltava-se, entregava-se à bebida ou às drogas? Nunca. Achava que era o destino e não a incomensurável ingratidão do ser humano. Em sua alma boa, perdoou a incrível atitude de Carlos Alberto Parreira, que proibiu a sua entrada na concentração da seleção brasileira por achar que sua simples presença traria maus fluidos… Pode? Um absurdo sem tamanho.

Bem, agora Barbosa descansa em paz. Deus o chamou para defender o gol da Seleção Celestial. Barbosa, agora você está livre do fantasma do gol do Ghighia, da ingratidão do Vasco da Gama, que deveria ter-lhe empregado em São Januário como zelador, porteiro, qualquer coisa. Ao menos como reconhecimento pelos mais de 10 anos que você defendeu seu gol. E principalmente da enorme idiotice que lhe barrou a entrada na Granja Comary. Incrível.

Eu não tenho dúvidas de que você não levou mágoas de ninguém, pois você, Barbosa, é muito maior que as pequenas criaturas que o desprezaram. Aqui fica a homenagem de alguém que sempre achou que Barbosa sempre foi Barbosa. Quantas vezes você impediu gols do meu São Paulo? Você estava no seu papel de grande goleiro que sempre foi.

DESCANSE FINALMENTE EM PAZ, GRANDE BARBOSA.

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