Heleno de Freitas

por Marcial Salaverry

Tivemos jogadores temperamentais em nosso futebol, porém como Heleno de Freitas foram poucos. Aqueles da velha guarda, certamente se lembram dêle. Era um craque na mais pura acepção da palavra. Jogava um futebol altamente refinado. Seus passes sempre chegavam redondinhos, nos pés dos companheiros. Para ele, uma firula, um drible bem dado, uma bola no meio das pernas tinha muito mais valor do que um gol "de canela", ou uma bola que entrava só por capricho. Enfim, o homem era CRAQUE  mesmo. Seu problema de temperamento era provocado pela doença que acabou com sua vida ainda jovem, a tuberculose (naquele tempo era fatal) que atacara seu cérebro.

Heleno de Freitas (qual botafoguense não se lembra dêle ?) teve muitas passagens, daquelas ditas célebres. Quando seu passe não era convenientemente aproveitado, era capaz de parar no campo, dirigir-se ao "perneta", lembrando tudo que sua mãe eventualmente fizera na vida...

Um dos casos registrados, deu-se com um jogador argentino, chamado Valsechi. Após algumas tentativas de tabela, quando Heleno dava aquele passe "açucarado" e aguardava, logicamente, a devolução adequada da "tabela" tentada, não se aguentou ao ver outra bola que o Valsechi "devolvia" ao adversário, ao invés de seus pés. Parou em campo e enquanto a jogada prosseguia, ele simplesmente chegou-se ao gringo, dizendo:
"Veja nossas camisas. São iguais. Mesmas cores, preto e branco, mesmas listras verticais, mesmo escudo, calção preto, tudo igual, certo?
Valsechi, timidamente disse:"Si, cierto."
"Então, seu gringo idiota (já aos berros) POR QUE VOCE ESTÁ PASSANDO A BOLA PARA  ELES, QUE TEM CAMISA VERDE E VERMELHA???"

Heleno deixou nosso convívio ainda jovem, aos trinta e poucos anos, vitimado pela doença que atrapalhou sua vida, e que nunca foi tratada. Sua vida poderá servir de alerta para todos os jovens que se preocupam sempre em viver o momento, esquecendo-se de que existe um futuro que deve ser planejado para que possa ser vivido. Heleno, apesar de sua doença, sempre viveu na boemia, desregradamente. Era comum chegar no dia do jogo, bêbado, entrar no campo e "estraçalhar". Treino era palavrão. Enfim tudo o que um atleta não deve fazer. Devido seu modus-vivendi, morreu na mais completa miséria, somente recebendo ajuda de alguns poucos amigos que ainda se lembravam de seu grande futebol.

Fica registrada nossa saudade.

line1.gif (910 bytes)