E deu o de sempre

por Alexei José Rodrigues

Fecham-se as cortinas e mais uma Copa do Mundo chega ao fim. Nesta, considerada por muitos a Copa das Zebras, deu o óbvio: Brasil.
Disse o óbvio porque nada amigos e amigas, nada estava mais claro, desde a vitória insossa da França em 1998, que retornaríamos, o mais breve possível, a nossa eterna posição de campeões do mundo. Foi o que assistimos, eufóricos, ontem de manhã.
Não virei aqui enxovalhar os do contra, às besta e os entendidos, afinal, certamente nos encontraremos daqui 4 anos na Alemanha. Agora, desejo que todos comemorem uma das maiores conquistas de nosso futebol, tanto no que se refere aos mistérios indecifráveis da bola, como nos números estatísticos frios e crus das planilhas.
A cortina cerrou e a alegria pela conquista se mistura a tristeza do fim da competição. Vejo nas caras amassadas pela ressaca, o olhar triste e vago da rapaziada. Os escretes do mundo todo deixaram os gramados e o canarinho voa de volta para o ninho tupiniquim, trazendo o caneco debaixo do braço e as glórias de sermos os maiores campeões de todos os tempos.
Como disse, as bandeiras que ainda tremulam nos automóveis e sacadas dos apartamentos nos dão ares de fim de festa e a volta à segunda-feira de toda a semana nunca foi tão impactante. Se lá, do outro lado do mundo, nos firmamos como os verdadeiros e inquestionáveis donos da bola, por aqui prosseguimos nossa eterna sina de miseráveis populares.
Quando a euforia pelo penta campeonato mundial passar, descobriremos incrédulos que enquanto a bola rolava lá do outro lado do mundo, por aqui continuamos, dia-a-dia sendo derrotados.
Já na rodada de estréia da Copa, o governo antecipou a correção às taxas de aplicação sem aviso prévio (mudou as regras do jogo sem dar maiores satisfações), surripiando os investimentos do pequeno e médio brasileiro. Mas e os grandes, perguntarão os mais desavisados, e os grandes? Os grandes, amigos e amigas, são espertos, sintonizados e antes da medida gatuna, sacaram coisa de R$ 2 bilhões destes fundos.
Cabe a pergunta: quem confiscou nosso dinheiro? Foram os comunistas, comedores de criancinha, barbudos e ignorantes? Ou foram os sociais liberais, formados na França e com as faces mais lisas que em comerciais de Gillete?
Mas tudo bem, tudo bem. Estamos acostumados a viver de sacrifícios para manter a economia nessa estabilidade que, atualmente, nem o mais pontual dos ingleses vê.
Foi quando entrou em campo o tal risco país e a subida desenfreada do dólar. Não quero dar uma de chato e ficar perguntando coisas que pareçam ser encanações de um detalhista, mas me arrisco a encher o saco dos nobres que ainda me aturam: que estabilidade é essa que nos surrupia o democrático direito de votar em quem eu prefira? Em quais alicerces está fundada nossa república se, quando penso em votar em um candidato, o Brasil ameaça ir para o bueiro? A constatação é inevitável, clara até em mesa do mais imundo botequim: o Brasil está tão firme quanto prego na areia.
Depois, veio o aumento das tarifas telefônicas. Sim, sim, sim. Mesmo com os super planos de descontos das grandes operadoras para as ligações ao redor do mundo, a ANATEL tratou de subir as tarifas nacionais e, já que era para marcar gols contra, resolveu meter uma goleada: aumentou também a assinatura residencial e comercial. Coisa de 13%, 14%, nada que não estejamos sumariamente acostumados.
O Brasil vencia a Bélgica e nós, orgulhosos, cochichávamos com o vizinho: "ainda bem que deram uma roubadinha pra nós?". E notem: estávamos apenas nas oitavas.
Já no campo energético, a eletricidade também disparou na ponta e embutiu, alguns reais a mais em seus valores. Aliás, como o diesel, que trouxe em sua ascensão na tabela, a gasolina nossa de todos os dias, que já beira os R$ 2,00.
Mas não ficamos só nisso amigos, não ficamos só nisso.
Enquanto, emocionados, assistíamos a recuperação heróica de Ronaldinho, os preços dos pedágios também deram sua subidinha ? percentual aliás, muito acima da inflação (se é que o percentual inflacionário é confiável).
Durante a Copa do Mundo, me perguntava por que nós brasileiros não mantemos sempre nossa linda bandeira a vista de todos. Me questionava: por que não a deixamos sempre tremulando?
Agora, sei: parte de nossos jogadores a envergonha e a desmerece. E mais uma vez, nos tiraram de campo, arrancaram nossa gloriosa camisa canarinho e, sem encontrar resistência, pintaram nossa cara, nos deram sapatos gigantescos e roupas espalhafatosas. Largaram-nos no picadeiro enquanto a mesma e eterna minoria, diverte-se as gargalhadas no aconchego VIP dos camarotes acolchoados.
Mas ainda nos resta o conforto em saber que pelo menos não fomos atirados a jaula dos leões, como muitos e muitos compatriotas ainda mais desfavorecidos. E então, deixamos tudo como está: cada um com seus problemas.
Afinal, quem espera sempre alcança, não é o que dizem? E daqui 4 anos, estaremos unidos novamente.

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